Apesar
das ausências verificadas no painel de convidados, os blogers
do encontro que decorreu quinta e sexta-feira em
Braga acenderam algumas luzes importantes para perceber o
fenómeno que só este ano chegou em força a
Portugal.
José Mário Silva (Blog de esquerda), José Pacheco
Pereira (Abrupto) e Francisco Amaral (Íntima Fracção),
que compunham grande parte do painel do segundo dia, não
puderam, por diversos motivos, deslocar-se a Braga.
Da intervenção do espanhol José Luís
Orihuela (e-cuaderno) fica um conceito curioso:
se Guttemberg tivesse nascido hoje, em vez da imprensa teria
inventado os blogs.
Contra a ideia de que os blogs são apenas uma moda, Orihuela
afirma que «a natureza da web e dos weblogs resulta numa
publicação à escala mundial sem editores, mas
ancorada num processo diário de 'revisão pelos pares'
e de comentários de leitores».
Ou seja, o blog criou um novo conceito de
comunicação. Dá ao seu autor a possibilidade
de partilhar ideias - boas ou más, reais ou
imaginárias - com os milhões de potencial cibernautas
que circulam pela net. Na blogosfera, não há
editores, nem chefes de redacção, nem
critérios jornalísticos a cumprir. É pensar,
escrever e publicar.
Simples, mas não para todos
Criar um blog é quase tão simples como abrir uma
conta de email na internet. Basta aceder a um dos muitos servidores
que fornecem blogs - como o português weblog.com.pt, o
norte-americano new.blogger.com, ou o brasileiro
webloger.terra.com.br, para mencionar apenas alguns - escolher
username e password e seguir as instruções
fornecidas.
Um processo, aparentemente democrático e acessível a
qualquer um, não fosse o problema da infoexclusão,
como salientou António Granado (Ponto Media), a quem calhou a tarefa de
dissertar sobre o panorama da blogosfera nacional.
É importante não esquecer que este maravilhoso mundo
da publicação em tempo quase real, «ainda
é um fenómeno de info-ricos», sublinhou o
jornalista do «Público».
De facto, percorrendo alguns dos blogs mais acedidos no nosso
país, percebemos que esta nova forma de
publicação está confinada a uma elite. A
possibilidade de editar e publicar informação para o
(cada vez mais) vasto público da internet, seduziu
não só aqueles que nunca se tinham dirigido às
massas mas também alguns «famosos» com acesso
directo aos meios de comunicação.
Embora não tenha podido deslocar-se a Braga, Francisco
Amaral explica no site do encontro que o blog Íntima
Fracção «surgiu porque o programa (de
rádio) entrou no 20 º ano de emissões e (...)
era altura de contar histórias que não cabiam na
estética» da rádio.
Quando os blogs são notícia
O eurodeputado do PSD Pacheco Pereira, que tem uma coluna de
opinião no «Público» e participava no
programa Flashback da TSF (com o socialista José
Magalhães), mantém o blog Abrupto desde Maio.
Esta semana, no Abrupto, Pacheco Pereira comparou Paulo Portas a Le
Pen , por causa do discurso que fez sobre imigração
na rentreé do CDS-PP.
O porta-voz dos democratas cristãos, António Pires de
Lima, não gostou e respondeu a Pacheco Pereira classificando
os seus comentários como «disparates». A
«guerrilha» continuou e acabou por saltar para as
páginas dos jornais.
O Gato Fedorento - mantido por Tiago Dores, Ricardo Araújo
Pereira e Zé Digo Quintela, das Produções
Fictícias - foi ainda mais longe. Não só foi
notícia nas páginas dos jornais, como vai ser
transformado num programa de televisão.
Miguel Esteves Cardoso e Francisco José Viegas são
outras personalidades que conquistaram um cantinho da imensa rede
que é a internet.
Fama anónima
Muitos blogs são conhecidos porque os seus autores
são famosos. Mas também há blogs de autores
anónimos que atingiram ao estrelato. Apesar da pouca
credibilidade, já que a fonte não pode ser
confirmada, estes blogs atraem centenas de visitas diariamente, e
claro, a atenção da imprensa.
É o caso do blog Muito Mentiroso. O autor desta
página aproveita a total liberdade de expressão
oferecida pela net para «libertar»
«informações» (?) polémicas sobre
o processo Casa Pia.
Quinta-feira, a SIC Noticias divulgou uma entrevista feita
através de email ao suposto autor da página. Desde
que foi criado, o Muito Mentiroso registou quase 200 mil
acessos.
O Meu Pipi é outro exemplo de fama
anónima. O blog alcançou um enorme sucesso com as
crónicas «a pisar o risco do mau gosto», como o
próprio autor afirma. O «Expresso» dedicou-lhe
uma reportagem que inclui uma entrevista ao homem por trás
da página, sem nunca revelar a verdadeira identidade do
autor.
Por tudo isto, parece que os blogs vieram para ficar, com toda a
sua diversidade. Cabe então ao leitor distinguir o trigo do
joio e escolher o blog que mais lhe convém, para entreter,
informar, ou desinformar.
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Data de criação : 07/01/24 Última actualização : 08/10/14 13:39 / 104 Artigos publicados
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